
Você pede uma vez. Pede de novo. Na terceira, aumenta a voz. Ele finalmente obedece. Talvez o problema esteja justamente nessa sequência.
Por Carolina Salles
Filho, vamos tomar banho.”
Nada.
“Eu já falei para ir tomar banho.”
Nenhuma reação.
“QUANTAS VEZES EU VOU TER QUE FALAR?”
A criança levanta. A mãe já perdeu a paciência e mais uma pequena batalha doméstica termina do jeito que ninguém gostaria.
No dia seguinte, provavelmente haverá outra.
Muitas mães resumem a situação dizendo: “Meu filho só me escuta quando eu grito.”
Mas será que ele só escuta nessa hora ou aprendeu que os primeiros pedidos podem ser ignorados?
Essa diferença é importante.
Quando o terceiro pedido vira o primeiro
Crianças aprendem rapidamente como as coisas funcionam dentro de casa. Se depois do primeiro pedido nada acontece, depois do segundo também não, mas no terceiro vem o grito e alguma consequência, a sequência fica previsível.
Não significa necessariamente que a criança esteja provocando ou desafiando os pais de propósito. Ela apenas percebeu até onde pode ir.
Por isso, repetir dez vezes uma mesma orientação pode produzir justamente o efeito contrário ao desejado: nossa palavra vai perdendo força.
Talvez seja melhor falar menos e agir com mais coerência.
Firmeza não precisa de volume
Imagine outra cena.
Em vez de gritar da cozinha para uma criança que está diante do videogame:
“Pedro, já falei para ir tomar banho!”
A mãe se aproxima e diz:
“Pedro, daqui a cinco minutos vamos desligar. É hora do banho.”
Cinco minutos depois, volta e mantém o que disse.
Parece simples. Na prática, exige persistência.
Porque estabelecer um limite é relativamente fácil. Difícil é sustentá-lo diante da reclamação, da insistência e daquele clássico: “Só mais cinco minutinhos…”
É justamente aí que a criança começa a entender se o combinado é realmente um combinado ou apenas uma possibilidade.
Cuidado com as ameaças impossíveis
“Você nunca mais vai jogar videogame!”
“Vou jogar esse celular pela janela!”
“Você vai ficar um mês sem sair!”
No calor do momento, pais dizem coisas que dificilmente conseguirão cumprir.
E as crianças percebem.
Consequências funcionam melhor quando são simples, proporcionais e possíveis de serem mantidas. Se o horário da tela acabou, ela é desligada. Se uma tarefa precisava ser feita antes de outra atividade, primeiro termina-se a tarefa.
Não é preciso transformar tudo em castigo.
Também não é necessário negociar cada orientação como se estivéssemos numa assembleia familiar.
Crianças podem participar das decisões da casa, mas algumas continuam pertencendo aos adultos.
E se eu perder a paciência?
Vai acontecer.
Pais se cansam, se irritam e às vezes levantam a voz. Ninguém precisa transformar um momento ruim em uma tragédia familiar.
Se exagerou, reconheça.
“Eu estava nervosa e não deveria ter falado daquele jeito.”
Pedir desculpas não diminui a autoridade. Ao contrário, ensina algo que queremos ver nos próprios filhos: a capacidade de reconhecer quando erramos.
Depois, seguimos.
O importante é não fazer do grito a principal ferramenta para conseguir cooperação.
Escolha o que realmente importa
Nem tudo merece uma batalha.
Roupa fora do lugar, banho, horário de dormir, alimentação, dever de casa, celular, videogame, maneira de falar, quarto bagunçado… Se tudo virar motivo para confronto, pais e filhos terminarão o dia esgotados.
Algumas regras são importantes porque envolvem saúde, segurança, respeito e funcionamento da família. Outras podem admitir alguma flexibilidade.
Educar também significa saber diferenciar uma coisa da outra.
E talvez exista uma boa pergunta para a próxima vez que você perceber que está prestes a fazer o terceiro pedido:
“O que eu disse nas duas primeiras vezes realmente precisava ser cumprido?”
Se precisava, talvez não seja necessário falar mais alto.
Talvez seja hora de falar uma vez, aproximar-se e sustentar o que foi dito.
Porque autoridade não deveria começar no terceiro grito.



