
Um dos maiores desafios relatados pelas famílias é a recusa alimentar. Uma recusa sistemática pode facilmente desencadear angústia nos pais, que muitas vezes reagem insistindo, barganhando ou demonstrando frustação.
“A gente não quer só comida
A gente quer comida, diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída para qualquer parte” (TITÃS, “ Comida, de 1984)
Escolho essa música porque denuncia que o sujeito deseja muito mais do que o alimento em si, ele busca, sobretudo, satisfação. A introdução alimentar é frequentemente descrita apenas como um marco biológico: a transição dos nutrientes líquidos para os sólidos, a descoberta de vitaminas e a evolução da mastigação. No entanto, quem acompanha de perto o dia a dia de uma criança sabe que a hora da refeição envolve muito mais do que a nutrição do corpo físico. No prato, servem-se também afetos, disputas de poder e, acima de tudo, a construção de identidade da criança.
Um dos maiores desafios relatados pelas famílias é a recusa alimentar. Uma recusa sistemática pode facilmente desencadear angústia nos pais, que muitas vezes reagem insistindo, barganhando ou demonstrando frustação. A criança percebe muito cedo que o seu apetite é o objeto de maior desejo dos pais. Ver o filho comer bem acalma a angústia parental. Logo, a comida torna-se a primeira grande moeda de troca da infância. Ao permitir que a criança regule seu próprio apetite, os pais ajudam a evitar que o alimento se torne um sintoma de conflito emocional futuro.
No contexto alimentar, a escola surge como um espaço potencial de neutralidade e socialização. No refeitório escolar, a criança depara-se com a alteridade: ela observa seus pares (outras crianças) comendo de forma autônoma, experimentando novos sabores e compartilhando o espaço. A presença do educador, que ocupa o lugar de um mediador, reduz a pressão emocional sobre o prato. Na escola, o ato de comer deixa de ser uma negociação afetiva com os pais e passa a ser um ato social, de pertencimento e imitação saudável, É por isso eu que muitas crianças que apresentam forte seletividade em casa alimentam-se com muito mais facilidade no ambiente escolar.
A introdução alimentar bem-sucedida não é aquela em que a criança como todo o prato sem reclamar, mas sim aquela que ocorre em um ambiente facilitador. Trata-se de um processo onde o erro, a recusa, a sujeira e a descoberta são acolhidos como parte do crescimento. Ao oferecermos comida aos nossos filhos, estamos oferecendo também a nossa capacidade de suportar suas frustações e celebrar sua crescente independência. Afinal, nutrir um filho é, acima de tudo, prepara-lo para que ele possa, um dia, alimentar-se do mundo por sua própria conta.
Sobre a autora
Paula Rienzo, Psicóloga e Psicanalista
CRP: 06/86664