
Mudar de escola ou de sala é, para muitas crianças e adolescentes, um verdadeiro terremoto emocional — ainda que silencioso. Novos rostos, novas regras, outro ritmo, outro professor.
Por Ricardo Valverde
Para o cérebro infantil, mudanças representam incerteza, e incerteza costuma gerar ansiedade. A boa notícia é que o acolhimento começa em casa, muito antes do primeiro dia de aula.
A ciência do comportamento humano mostra que crianças e jovens observam menos o que os pais dizem e mais como os pais sentem. Quando adultos demonstram tranquilidade, confiança e abertura, o cérebro do filho interpreta a mudança como algo seguro. Já quando os adultos antecipam problemas — “tomara que você se adapte”, “qualquer coisa me conta”, “se alguém te tratar mal…” —, mesmo com boa intenção, acabam plantando insegurança antes mesmo da experiência começar.
Um acolhimento saudável passa, primeiro, por validar emoções sem amplificá-las. É natural que o filho sinta medo, curiosidade ou até resistência. Ouvir com atenção, sem minimizar (“isso é bobagem”) e sem dramatizar (“coitadinho”), ajuda a criança a nomear o que sente e a seguir em frente. Psicólogos do desenvolvimento destacam que emoções reconhecidas se organizam; emoções ignoradas ou supervalorizadas se intensificam.
Outro ponto essencial é evitar comparações. Frases como “na outra escola era melhor” ou “seu primo se adaptou rápido” criam uma régua injusta. Cada criança tem seu próprio tempo de vinculação social. A neurociência social aponta que o sentimento de pertencimento se constrói aos poucos, por repetição de interações seguras, e não por imposição ou cobrança imediata.
Criar pequenas âncoras emocionais também ajuda. Combinar um momento de conversa no fim do dia, manter algumas rotinas familiares estáveis e demonstrar interesse genuíno — sem interrogatório — transmite a mensagem mais importante: “você não está sozinho”. Esse tipo de segurança emocional fortalece a autonomia, ao contrário do que muitos pensam.
Para adolescentes, o cuidado precisa ser ainda mais sutil. Eles tendem a falar menos, mas sentem tanto ou mais. Respeitar o silêncio, estar disponível sem invadir e evitar julgamentos rápidos cria um espaço emocional seguro. Estudos sobre comportamento adolescente mostram que o vínculo se fortalece quando o jovem sente que pode procurar o adulto sem medo de sermão.No fundo, acolher um filho em um novo ambiente não é resolver tudo por ele, nem protegê-lo de todas as dificuldades. É ensinar, na prática, que mudanças fazem parte da vida e que é possível atravessá-las com apoio, presença e confiança. Quando a base está firme em casa, o mundo lá fora assusta menos — e a adaptação acontece.



