Quem está educando dentro da sua casa?

Por Marcelo Vieira

Durante muito tempo, as principais referências de uma criança eram relativamente fáceis de identificar: família, escola, amigos, televisão. Hoje existe mais alguém participando dessa educação, silenciosamente, durante várias horas por dia. É o algoritmo. Ele decide quais vídeos aparecem em seguida, quais influenciadores ganham espaço, quais assuntos se repetem e, aos poucos, vai selecionando uma parte do mundo que crianças e adolescentes enxergam.

TikTok, YouTube, Instagram, jogos e outras plataformas não oferecem apenas entretenimento. Ali também circulam ideias sobre beleza, dinheiro, consumo, relacionamentos, sexualidade, sucesso, corpo, comportamento e felicidade. O problema não está simplesmente em assistir a um vídeo ou acompanhar um influenciador. Está na repetição. Quando determinado conteúdo aparece dezenas de vezes, começa a parecer normal, desejável e até verdadeiro. E nem sempre percebemos que isso está acontecendo.

Por isso, talvez seja insuficiente perguntar apenas: “quanto tempo você ficou no celular?”. Precisamos começar a perguntar também: “o que você está vendo por lá?”. Quem são as pessoas que seu filho acompanha? Quem ele admira? Do que ri? Que tipo de conteúdo compartilha? O que deseja comprar? O que começou a pensar sobre o próprio corpo? Essas respostas podem revelar muito mais do que o relatório semanal de horas de tela.

Proibir tudo dificilmente será a solução. Crianças e adolescentes fazem parte desse mundo e precisam aprender a viver nele. Mas entregar um celular e simplesmente sair de cena também não funciona. Pais precisam conversar, assistir juntos de vez em quando, questionar informações, mostrar outros pontos de vista e, principalmente, continuar oferecendo referências dentro de casa.

Existe ainda uma questão que incomoda, mas merece ser feita: quanto espaço estamos deixando vazio? Quando faltam conversa, convivência, interesse e presença, outras vozes naturalmente ocupam esse lugar. E algumas delas são escolhidas por sistemas cujo objetivo principal não é educar nossos filhos, mas manter sua atenção pelo maior tempo possível.Não precisamos competir com a internet. Precisamos continuar sendo relevantes na vida de quem estamos educando. Tecnologia muda, plataformas passam e novos influenciadores aparecem todos os dias. Presença, vínculo, exemplo e bons valores continuam sendo algoritmos que nenhuma tecnologia consegue substituir.