
As bets estão no futebol, nas redes sociais, nas transmissões esportivas, nas camisas dos times e no discurso de influenciadores. Para muitos adolescentes, apostar começa a parecer tão comum quanto acompanhar o resultado de uma partida.
Por Juliana Prado
Pai, é só uma apostinha. A frase pode parecer inofensiva, mas esconde um fenômeno que cresceu muito no Brasil. As bets estão no futebol, nas redes sociais, nas transmissões esportivas, nas camisas dos times e no discurso de influenciadores. Para muitos adolescentes, apostar começa a parecer tão comum quanto acompanhar o resultado de uma partida. E aí mora um dos problemas: aquilo que aparece o tempo todo deixa de ser percebido como risco.
É importante explicar uma coisa simples aos filhos: bet não é investimento. Investir significa aplicar dinheiro esperando retorno a partir de algum fundamento econômico. Na aposta, existe sempre a possibilidade concreta de perder o valor colocado, e a plataforma ganha justamente porque, no conjunto das apostas, os jogadores perdem mais do que recebem. A sensação de “quase ganhar”, as promoções, os bônus e a possibilidade de apostar novamente em poucos segundos ajudam a manter a pessoa jogando.
Também precisamos conversar sobre o dinheiro fácil. Nas redes sociais, um jovem pode assistir a alguém comemorando um grande prêmio, mas raramente verá com a mesma intensidade todas as apostas perdidas antes daquele acerto. Isso cria uma percepção distorcida: “se ele conseguiu, eu também consigo”. Para quem ainda está amadurecendo a capacidade de avaliar consequências, essa promessa pode ser especialmente sedutora.
A legislação brasileira proíbe apostas para menores de 18 anos. Mas proibir, sozinho, não educa. A prevenção precisa começar antes. Quando assistirem juntos a uma partida e aparecer uma propaganda de bet, aproveite. Pergunte ao seu filho como ele acha que aquela empresa ganha dinheiro. Converse sobre probabilidade, impulsividade e frustração. Mostre que dinheiro é conquistado com trabalho, planejamento, estudo e boas escolhas, não com a expectativa de acertar o próximo resultado.
E vale olhar para o nosso próprio exemplo. Não adianta dizer ao adolescente que apostar é perigoso enquanto os adultos da casa passam o fim de semana conferindo bilhetes e comemorando odds. Nossos filhos escutam o que falamos, mas também aprendem observando aquilo que fazemos.
Prevenção não começa quando aparece uma dívida ou quando alguém perde o controle. Começa muito antes, numa conversa simples à mesa, no sofá ou durante um jogo de futebol. Afinal, ensinar nossos filhos a lidar com dinheiro também é ensiná-los a não cair na armadilha de acreditar que existe um caminho fácil para ganhá-lo.



