
Desentendimentos, brincadeiras de mau gosto e conflitos fazem parte da convivência e também precisam ser trabalhados.
Por André Martins
Isso passa. Você precisa aprender a se defender. Na minha época era muito pior. Essas frases costumam nascer da intenção de fortalecer os filhos, mas podem produzir exatamente o contrário: fazer com que eles parem de contar. Em agosto, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) apresentou um novo material de prevenção ao bullying e ao cyberbullying, reforçando uma discussão que já não pode ser tratada como exagero ou simples conflito entre crianças e adolescentes.
Nem toda provocação é bullying. Desentendimentos, brincadeiras de mau gosto e conflitos fazem parte da convivência e também precisam ser trabalhados. O alerta aumenta quando existe repetição, intenção de ferir, humilhar ou excluir e uma dificuldade da vítima em se defender. No ambiente digital, a situação pode ganhar outra dimensão: a humilhação atravessa o portão da escola, chega ao celular, circula em grupos e pode permanecer disponível por muito tempo.
Para os pais, talvez o primeiro passo seja menos complicado do que parece: não diminuir aquilo que o filho está sentindo. Se ele finalmente disser “estão pegando no meu pé”, “ninguém quer ficar comigo” ou “fizeram um grupo para falar de mim”, evite começar procurando culpados ou oferecendo soluções prontas. Escute. Pergunte há quanto tempo acontece, quem está envolvido, como ele está se sentindo e se a escola já sabe. Depois, sim, é hora de agir.
E atenção também ao outro lado da história. Nosso filho pode não ser a vítima. Pode estar participando das piadas, compartilhando imagens, excluindo alguém do grupo ou ajudando a transformar um colega em alvo. Nessa hora, defender automaticamente o filho não ajuda ninguém — nem mesmo ele. Educar também significa ajudá-lo a reconhecer quando ultrapassou limites, reparar danos e aprender outras maneiras de conviver.
Bullying não se resolve ensinando uma criança a “aguentar mais”. Nem criando filhos incapazes de enfrentar qualquer frustração. O desafio é outro: formar crianças fortes sem ensiná-las a aceitar humilhações e crianças seguras sem permitir que humilhem os outros. É nesse equilíbrio que família e escola precisam caminhar juntas


