
Entenda como o trabalho voluntário pode ajudar na formação da personalidade dos jovens
Fernanda Maranha
O trabalho voluntário é um ato de bondade e generosidade que pode ser feito por qualquer um, apenas doando um pouco de seu tempo para melhorar a vida de quem mais precisa. Diversas são as instituições e os tipos de trabalhos voluntários que podem ser feitos. E, além da clara ajuda que é dada para quem carece de cuidado, quem pratica o trabalho voluntário também pode ganhar muito com tal ação.
Um dos principais benefícios para quem doa o seu tempo ao próximo é o de conhecer diferentes realidades. Isso traz consigo a sensação de pertencimento a um grupo, e a consciência de como funciona a sociedade.
Na adolescência esses valores tornam-se ainda mais importantes, pois auxiliam na construção de uma personalidade mais consciente e responsável na vida adulta, como afirma a psicóloga do Espaço Clínico Ápice, Angeline Uenoyama. “Quando nos deparamos com situações ou pessoas com histórias muito distintas da nossa, descobrimos que o mundo é muito diferente daquilo que imaginamos e, assim, ampliamos nossa percepção e entendimento sobre ele”, diz.
Pensando nisso, um colégio da zona oeste de São Paulo, implementou um projeto social com os seus alunos para incentivá-los a realizar trabalho voluntário. “O intuito é mobilizar os alunos para olharem e cuidarem da própria comunidade, fazer eles olharem para o espaço que ocupam e se entenderem como parte da sociedade”, revela Angélica Larcher, professora de Sociologia e coordenadora do colégio.
O foco do projeto social são instituições localizadas nos arredores da escola, no mesmo bairro. Angélica explica que essa atuação local foi escolhida para que os adolescentes percebam que podem mudar o meio em que vivem e tenham consciência de que, mesmo ao lado de casa, há uma realidade bastante diferente da deles.
Primeiramente, a escola entra em contato com as instituições do bairro perguntando quais são as demandas de cada uma e como o tempo dos alunos pode beneficiá-las. “Não queremos dar cara de assistencialismo, mas sim de integração da comunidade”, revela Angélica.
A partir daí, elas organizam quando e como poderão ajudar, combinando em que dia, horário e quantos alunos poderão ir em cada instituição e o que eles irão fazer, e avisam os estudantes.
O próprio colégio fornece transporte e qualquer outra necessidade para realizar o trabalho, como material para brincadeiras com crianças, por exemplo. Também antes da ação, os alunos têm uma aula para dar embasamento e contexto para o trabalho que irão realizar.
Entre as ações já realizadas pelos jovens da escola, estão: brincar com crianças e passar alguns minutos com bebês no colo em creches e orfanatos, fazer companhia para idosos e, até mesmo, pintar o muro de instituições que precisam de ajuda.
Fernando de Souza, de 16 anos, e aluno do 2º ano do ensino médio do colégio que Angélica coordena, já participou de alguns trabalhos voluntários, por intermédio desse projeto social, e este foi o primeiro contato dele com o voluntariado.
O primeiro trabalho voluntário realizado por Fernando foi uma ação em uma creche: ele passou um tempo brincando com as crianças. “Quando falaram para a gente desta oportunidade em uma creche, senti vontade de ir e me candidatei, mas não estava com altas expectativas”, conta Fernando. Depois de passar pela experiência, o jovem afirma que foi muito mais interessante do que ele esperava: “É muito legal a experiência de lidar com o outro. É bastante diferente do que eu pensava”. Entre as coisas que mais chamaram a atenção, Fernando destaca a conversa com as crianças pequenas, que relataram vivências completamente diferentes da dele.
Depois desta primeira vez, ele se animou com o voluntariado e chegou a participar de outras ações. Uma delas foi em uma instituição de apoio a refugiados. “É como aprender as coisas da sala de aula, mas vividas na prática”, conta ele.
Este conhecimento prático é outro benefício que os adolescentes que se dedicam ao trabalho voluntário podem desfrutar. “O engajamento com o voluntariado na fase de adolescência pode ser um diferencial tanto em termos sociais como profissionais”, diz a psicóloga Angeline. Ela elenca outros aprendizados que podem ser absorvidos do trabalho voluntário, como aprender novas habilidades, estimular novas vocações e até colocar em prática talentos ainda desconhecidos – o que pode inclusive ajudar na escolha da profissão, assunto que toma a vida dos jovens no período do Ensino Médio.
Já entre as habilidades sociais adquiridas, a psicóloga destaca o estreitamento de relações com outras pessoas, o desenvolvimento de espírito de equipe – ou seja, desenvolver a noção de que o trabalho e a instituição só funcionam se muitos ajudarem para que isso aconteça – e também a consolidação da cidadania do jovem desde cedo.
O benefício dos jovens para as instituições
As instituições de caridade também se beneficiam dos jovens que desejam fazer trabalho voluntário. Um exemplo disso é a organização não governamental Operação Sorriso. Trata-se de uma instituição nascida nos Estados Unidos, em 1982, que tem como principal objetivo realizar missões cirúrgicas para operar crianças que nasceram com fenda palatina e lábio leporino, com atuação em 60 países em todo o mundo.
No Brasil, a instituição atua desde 1997, e realiza missões voluntárias para fazer operações em três das cinco regiões brasileiras.
Por ser uma organização de natureza médica, a maior parte dos voluntários que participam das missões – cerca de 200 no Brasil e mais de seis mil no mundo – são médicos. Mas os jovens também têm papel especial, conforme relata Ana Leme, coordenadora de comunicação na Operação Sorriso.
“Além dos médicos, temos voluntários para outras funções: quem cuida dos prontuários, insere dados no sistema, e também os que fazem as fotos técnicas dos pacientes, fora os estudantes que atuam como apoio em geral”, diz Ana.
A atuação da Operação Sorriso com jovens acontece em todo o mundo e começou quando o casal de fundadores da ONG, Bill e Kathy Magee, que eram médico e enfermeira, respectivamente, decidiram levar seus filhos para as missões e só viram vantagem na ação, pois os jovens se encantaram pelo voluntariado.
Hoje, a entidade atua no modelo de clubes estudantis: são sete em cinco estados brasileiros. “Os clubes são formados por estudantes de escolas e faculdades, sem limite de idade, e o intuito é despertar o trabalho voluntário neles desde cedo, visando que eles se tornem futuros líderes”, conta Ana.
A instituição trabalha quatro pilares com os adolescentes, conforme explica a coordenadora de comunicação: liderança, educação, conscientização e serviço social. “O objetivo é fazer ações em conjunto que se encaixem nesses quatro pilares”, conta Ana. Alguns exemplos são: auxílio na arrecadação de fundos e doações, divulgação da causa da ONG e suporte nas missões de cirurgias.
Um dos prêmios que a organização dá como recompensa ao bom trabalho realizado pelos clubes estudantis é a oportunidade de viajar com as missões, para que eles possam perceber, na prática, como o trabalho de cada um impacta vidas – e o prêmio é concorrido!
“Essa molecada vem com uma energia muito grande”, comemora Ana sobre a participação dos adolescentes nas missões voluntárias. Ela revela ainda que eles dormem tarde, acordam cedo e têm disposição de sobra para apoiar o trabalho, trazendo consigo energia positiva para lidar com as crianças e uma renovação no grupo.
“Se estamos acostumados com as mesmas coisas, eles trazem ideias inovadoras. Os jovens de hoje em dia já têm uma consciência social muito forte, nós não precisamos ensinar isso, eles vêm com a vontade de ajudar e a gente só dá um caminho”, conclui Ana.



