
Diga com quem seu filho anda e eu te digo para onde ele pode estar indo
Por Mariana Valverde – Jornalista de comportamento e juventude
Todo pai e toda mãe já ouviram essa frase em algum momento da vida. Durante muito tempo, ela foi tratada como exagero. Hoje, a ciência mostra que ela faz mais sentido do que nunca.
Na infância e, principalmente, na adolescência, as amizades deixam de ser apenas companhia. Elas passam a ser referência. De comportamento, de linguagem, de escolhas e, muitas vezes, de valores.
E isso acontece por um motivo simples: o grupo passa a ocupar um espaço emocional que antes era quase exclusivo da família.
Segundo o psicólogo Albert Bandura, grande parte do comportamento humano é aprendido por observação e imitação. Ou seja, crianças e adolescentes não aprendem apenas com o que os pais dizem — aprendem, principalmente, com o que veem ao seu redor.
E o “ao redor”, nessa fase, são os amigos.
Na prática, isso significa que o grupo pode ser um fator de proteção… ou de risco.
Amigos que valorizam estudo, respeito e limites tendem a puxar a criança para cima. Já grupos onde há desrespeito, exposição exagerada, uso precoce de álcool ou comportamentos de risco acabam normalizando aquilo que antes seria estranho.
E esse é o ponto mais delicado: o comportamento não entra na vida do jovem de forma brusca. Ele entra aos poucos, como algo aceitável.
Primeiro, parece só uma brincadeira.
Depois, vira hábito.
E quando os pais percebem, já está instalado.
Um outro olhar importante vem do psiquiatra Augusto Cury, que reforça que a adolescência é uma fase de intensa necessidade de pertencimento. O jovem quer fazer parte, quer ser aceito, quer se sentir incluído.
E, para isso, muitas vezes ele flexibiliza valores que aprendeu em casa.
Não porque esqueceu.
Mas porque quer caber.
É por isso que simplesmente proibir amizades raramente funciona.
Quando os pais atacam diretamente o grupo, o efeito costuma ser o oposto: o jovem se fecha, esconde e fortalece ainda mais aquele vínculo.
O caminho mais eficaz não é o confronto direto.
É a presença estratégica.
Pais atentos observam sem invadir.
Perguntam sem pressionar.
E, principalmente, criam um ambiente onde o filho se sente seguro para falar — inclusive sobre aquilo que sabe que não será aprovado.
Porque quando o diálogo existe de verdade, o filho não precisa viver duas vidas: uma para os pais e outra para os amigos.
Mas aqui vai um ponto que precisa ser dito com clareza:
– Amizade influencia. Muito.
Ignorar isso não protege.
Acompanhar, sim.
Saber quem são os amigos, conhecer as famílias, observar mudanças de comportamento, perceber novos hábitos — tudo isso faz parte da educação.
Não é controle excessivo.
É cuidado.
No fim das contas, nenhum pai escolhe os amigos do filho.
Mas pode — e deve — influenciar o ambiente onde esse filho está inserido.
Porque uma coisa é certa:
– Nenhum jovem se perde sozinho.
– E nenhum jovem se fortalece sozinho também.
As amizades sempre estarão no caminho.
A diferença está em como os pais se posicionam diante delas.